terça-feira, 21 de dezembro de 2021

amahrte

Eu escrevo porque preciso e é importante. Escrevo porque você está muito presente, mesmo estando distante. Escrevo porque o que faz sentir, faz sentido. Mesmo que eu não entenda o porquê, a razão e o motivo. Escrevo porque não posso falar. Escrevo aquilo que você não quer escutar, mas que aqui não se pode calar. E porque o seu silêncio não para de gritar. Palavras podem ser inúteis, se eu não souber verbalizar. Pois há palavra que desagrada, agride, mas há palavra que às vezes pode curar. É como um jogo de paciência onde eu não consigo ganhar. Eu perco pra você, por não ter sapiência e por não saber jogar. Você é água turva, não me deixa enxergar. Quanto mais eu abro os olhos, mais difícil mergulhar. É como um emaranhado, impossível de desenrolar. Seus olhos marejados são ponto final, onde eu queria descansar e nesse cais, você é o caos que eu posso pacificar. Foge de dicionários e de diálogos vários, foge de todo e qualquer clichê o que eu sinto por você: eu te amo, sem você merecer. Mas isso não é importante, porque o meu sentimento por si só já é o bastante. Eu te quero, mas não preciso de você. São muitos deslizes, falhas e desencontros, mas depois de tudo isso e depois de tudo aquilo eu ainda sigo querendo que você fale comigo. É uma conta que não quer bater, não quer fechar. Parece injusto, porque dessa conta, eu deveria te dar o troco, mas decidi não revidar. Eu sigo procurando respostas que me possam esclarecer, mas quanto mais eu penso, mais eu sinto que é esse o motivo, pra isso tudo, de fato, verdadeiro ser.

camilla caju

sábado, 24 de abril de 2021

“Talvez eu me case. Talvez não. Talvez eu viaje pelo mundo. Talvez viaje apenas pela mente. Talvez os meus planos para o futuro funcionem. Talvez eu quebre a cara. Quem é que sabe? É possível que eu morra velhinha, com três netos e um bisneto. E é possível que minha luz se apague no meio de uma tarde quente, no trânsito, no mar ou no asfalto, aos 23. Tudo pode acontecer. E quem é que sabe? O vento do mundo pode me carregar para um lugar distante do que conheço, assim como uma brisa pode me trazer de volta. O mesmo sopro que pode me acender num instante, pode me apagar no segundo seguinte. E, no entanto, eu vivo. Talvez eu nunca me torne a pessoa que quero ser. Talvez eu vire alguém ainda melhor. Ou pior, nunca se sabe. É certo que escolhemos o nosso rumo, mas quem sabe as opções que nos serão dadas? Talvez eu seja e talvez eu morra tentando. A vida é um mar. Ou um marasmo. Talvez eu me afogue, talvez conquiste um novo continente. Quem é que sabe?”
—  rio-doce

quarta-feira, 10 de março de 2021

Solteiro

Há uma grande verdade hoje nas relações que explica porque está tão difícil "dar certo" - NÃO EXISTE NINGUÉM que esteja realmente SOLTEIRO e disponível de alma. Esta é a verdade simples, direta e assustadora. (...) Você pode se perguntar -"Ué, mas eu tô sem ninguém"!!!!

- Mas está "casada" com aquele seu ex que até hoje você não rompeu os laços de mágoa, abandono, paixão e ilusão.

- Mas está "casada" com seu pai ou sua mãe, exercendo a função de um dos dois para suprir a ausência de um deles na família e não enxerga isso - mas quem encosta em você sente na energia e pede pra sair. 

- Mas está casada com alguma crença do tipo "eu não dou certo", "homens não prestam", "mulheres só querem dinheiro", e estas suas crenças ocupam o lugar de alguém que poderia estar ao teu lado. Você no fundo se acostumou a isso e tem medo de ousar ser feliz.

Por alguns destes motivos, quando você se relaciona, namora, noiva e casa... As coisas parecem tão difíceis, embora simples. Na maioria das vezes, energeticamente você vive um triângulo amoroso ou quarteto amoroso com a pessoa de carne e osso, e a "outra" citada acima. Ou você rompe de vez e coloca um ponto final nos seus "casos mal resolvidos ou nem entendidos", ou os zumbis que deixou vão ser vampiros ávidos do sangue da tua felicidade real. E você vai dizer que “não dou certo com ninguém”.

Por Jordan Campos

quarta-feira, 3 de março de 2021

A DOR QUE DÓI MAIS


Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas. 
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros , A dor que dói mais in Trem-Bala. L&PM Editores. 1999.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

A mulher de trinta anos


Existe uma expressão muito famosa oriunda da literatura que chama algumas mulheres de "balzaquianas". Mas o que vem a ser isso?
O termo Balzaquiano entrou para o dicionário português não só como "algo relativo à obra de Balzac", mas também como um adjetivo para qualificar pessoas com mais de trinta anos, especialmente na forma feminina.

Essa expressão vem de um livro, La Femme de trente ans, um romance do autor francês Honoré de Balzac, escrito entre 1829 e 1842. O livro conta a história de Julie, a infeliz heroína, uma mulher burguesa e deprimida por causa de seus problemas sentimentais e seu casamento fracassado. O romance traz uma linguagem difícil e profunda, mas é também uma obra revolucionária e escândalosa para a sociedade parisiense do início do século XIX.

A protagonista que viveu um casamento distante e infeliz, levava a vida de forma melancólica. Então ela acaba buscando sentido em várias coisas e pessoas e não o encontra nem mesmo na maternidade. 
Mas aos 30 anos, essa mulher se torna madura, mais confiante. Julie está no auge de sua sexualidade e mais segura de si. E logo ela começa a se apaixonar de verdade e sua vida ganha novas cores. 
O livro defende a ideia de que a mulher mais velha ou mais experiente é muito mais interessante do que uma mulher mais nova.

“As moças costumam criar nobres, encantadoras imagens, figuras totalmente ideais, e forjam ideias quiméricas sobre os homens, sobre os sentimentos, sobre o mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições com que sonharam e a ele se entregam; amam no homem de sua escolha essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando já não há tempo de se livrar da desgraça, a aparência enganadora que embelezaram, o primeiro ídolo enfim transforma-se num esqueleto odioso.” (trecho do livro)

No dia 30 de maio desse ano que se passou, eu completei 30 anos. Eu me tornei uma mulher balzaquiana e cheguei a algumas conclusões. 
A mulher balzaquiana aprendeu muito com seus próprios erros. De tropeço em tropeço, hoje ela se mantém em pé, de cabeça erguida e não é qualquer coisa que a consegue derrubar. Ela sabe diferenciar solitude de solidão, assim como ela sabe diferenciar quem está ao seu lado de quem está apenas com ela. Ao seu lado existem centenas, quem está com ela são poucos, quem está por ela, menos ainda.

Ela tem amigos dentro de si, o tempo, a geografia os distanciou. Eles não estão ao seu lado, mas estão com ela, por ela. Eles sempre serão seus melhores amigos. 
Mas a verdade é que ela é sua própria melhor amiga! Pois sabe apreciar sua própria companhia. Ela fala sozinha, porque não há melhor companhia para se dialogar, senão a sua. Ela se basta por si mesma, porque aprendeu com muita dificuldade a olhar para dentro de si e a ter amor próprio. Afinal, tudo que ela realmente precisa é dela mesma e de Deus.

Ela aprendeu o valor da palavra, da que tem que ser dita do jeito certo e da que não precisa ser falada. Ela prefere o silêncio. Ele é capaz de dizer coisas importantes que seus ruídos jamais poderiam dizer pois nossas muitas vozes são falhas, dúbias, muitas vezes arrogantes. O silêncio acerta. 

A mulher balzaquiana se conhece bem, é madura, experiente e por conta disso, mais racional. Ela não aceita menos do que merece. Nem tudo a agrada, nem tudo a engana. Porque sua vivência dá a ela a sensação de que "já viu esse filme" e aí, meu amigo, ela tira de letra. Ela é forte e passou por muitas coisas, mas aprendeu a amar sua própria história pois foi através dela que ela pôde se reconstruir um milhão de vezes e hoje tem seu caráter forjado.

A mulher de trinta anos, assim como Jesus que começou sua missão no mundo com essa mesma idade, está pronta pra sua própria missão de vida, da vida que ela escolheu. 
Ela é muito mais do que os olhos podem ver, ela é muito mais do que um amontoado de palavras a poderiam descrever. Ela é e pronto. A mulher balzaquiana, que eu sou, não se resumo a um texto. Mas essas palavras trazem uma partícula da imensidão do universo que é ser mulher. Porque essa mulher não se trata apenas de você e eu, ela é múltipla, ela é infinita. Ela é. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Non ducor duco




Sempre viajo para São Paulo. Tenho muitos parentes paulistanos e também tive a experiência de morar lá durante alguns meses. De todas as paisagens e informações visuais que a cidade me oferecia, uma delas sempre me chamou a atenção: Non ducor duco, do latim, significa "não sou conduzido, conduzo." Essa expressão presente nos ônibus, junto ao brasão da bandeira da cidade, traduz muito bem a vida paulistana, sempre em constante movimento, evolução, seu espírito de liderança, sua correria, entre outras coisas. 

Então, a partir dessa simbologia paulistana, comecei a pensar sobre conduzir ou ser conduzido. Me questionei se eu estava conduzindo, guiando a minha própria história ou sendo conduzida. Passei a me perguntar se eu estava sendo protagonista ou coadjuvante da minha vida e dos meus sonhos.

Nós aprendemos observando exemplos, seguimos protocolos, obedecemos regras, nos vestimos conforme as tendências, consumimos coisas parecidas e por fim, reproduzimos o mesmo. Afinal, é muito mais fácil seguir hábitos e ações preestabelecidas.

Como já dizia Zeca Pagodinho: "E deixa a vida me levar (vida leva eu!)" Sabe quando você vai levando as coisas, simplesmente? Só assinando embaixo e aceitando tudo que lhe aparece sem questionar? Isso acontece porque muitas vezes nós ligamos o modo automático da vida e vamos apenas executando as coisas, sem escolher ou reclamar, às vezes por costume, muitas vezes por pura preguiça mesmo. 

Mas você já olhou para dentro de si e examinou cada questão, cada característica peculiar que você tem? Você já se questionou se suas escolhas são baseadas no indivíduo que você é ou no coletivo? Existe algo que você gostaria de fazer ou usar que você acaba deixando de lado por pensar num consenso, numa opinião coletiva?

Eu penso que se não tomarmos os "lemes" de nossas vidas, podemos ser levados para várias direções ou para direção nenhuma. Se não tomarmos iniciativas para conduzirmos nossos sonhos e objetivos, vamos viver um roteiro escrito previamente, vamos levando as coisas de qualquer jeito, sem um propósito.

É fácil? Nãããão! É extremamente difícil, mas vale a pena. Sermos protagonistas de nossas vidas requer muito empenho, pois é um penoso trabalho e algumas pessoas simplesmente não conseguem. Talvez nesse processo você tenha que nadar contra a maré, contrariar expectativas,  desagradar pessoas, driblar protocolos e/ou desprezar regras. E isso tudo é muito difícil, exige coragem, certeza, opinião, personalidade e irreverência. 

Alguns anos atrás, pensando nisso tudo, eu percebi que estava sendo apenas coadjuvante da minha história e que eu tinha que tomar o leme da minha vida. Refleti muito, tomei decisões, e entao o universo conspirou ao meu favor e tudo foi se encaminhando, todas as coisas foram cooperando para que eu conseguisse encontrar o meu eixo e viver a vida que eu sonhava.
Nesse ano de 2020 eu precisei retomar esse exercício mental e tomar decisões e atitudes que se desdobrariam em mudanças e novidades. Mais uma vez um processo longo e doloroso, mas que valeu muito a pena!

Sendo assim, não posso e nem devo julgar, mas trago à tona essa questão para vocês a fim de propor reflexões. 

Se você vive dessa forma, tudo bem. Digamos que viver assim não é errado, e pode funcionar para muitas pessoas, mas te garanto que é muito melhor direcionar sua vida para o que lhe agrada mais, protagonizar seu caminho e suas escolhas a fim de alcançar suas metas, sonhos etc. É hora de ser quem você sempre sonhou. Abrir novas trilhas, novos caminhos, ao invés de apenas seguir os trilhos. Até porque quem anda nos trilhos é trem.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

 Sobre o Setembro Amarelo, é bom lembrar desse texto do Rubem Alves: 


"Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem  a dizer. (...) Para ouvir não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio de dentro. Ausência de pensamento. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia."

sábado, 25 de julho de 2020


Pior do que uma discussão insistente é um silêncio que fala. Simples, rápido, forte.
Hoje me veio à cabeça situações em que o silêncio me disse verdades terríveis. O silêncio não é dado a amenidades. Ele grita através de um telefone mudo, uma mensagem lida e não respondida, uma conversa quase monossilábica.  São momentos silenciosos que falam sobre desinteresse, esquecimento, recusas, apatia, desespero.

Muitas coisas são ditas na quietude, depois de uma discussão. O perdão não vem em um beijo, mas sim depois de longos momentos de reflexão. Introspecção cura, mas também pode ser a ante-sala do fim. Palavras articulam argumentos, expõem queixas, tentam ser explícitas, mas nem sempre são justas ou compreendidas. Nessas horas o silêncio pondera, isola, intimida. O silêncio perturba porque às vezes ele fala. E fala alto. Porque é quando não há nem mais palavras que você entende a solidão que ele traz.

(Via Marcia Oura)