quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Pé de Nabo

Ser assim é uma delícia
Desse jeito como eu sou
De outro jeito dá preguiça
Sou assim pronto e acabou
A comida de costume
Como bem e não regulo
Mas tem sempre alguns legumes
Que eu não sei como eu engulo
Brincadeira, choradeira,
Pra quem vive uma vida inteira
Mentirinha, falsidade,
Pra quem vive só pela metade
Quando alguém me desaponta
Paro tudo e dou um tempo
Dali a pouco eu me dou conta
Que ninguém é cem por cento
Seja um príncipe ou um sapo
Seja um bicho ou uma pessoa
Até mesmo um pé-de-nabo
Tem alguma coisa boa
(Palavra Cantada)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

17 de janeiro



Eu olhei a tristeza nos olhos
E eu sorri
Mesmo quebrantado pela vida que escolhi
Da janela eu vi cada estação fugir
Como as árvores eu permaneço no mesmo lugar
No outono, no inverno, eu espero primavera chegar
Da estrada eu quis retornar para onde partir
Da distância avistei a alegria e a esperança
Das migalhas que desperdiçamos, faremos jantar
Eu voltaria atrás
Pra tentar me avisar
Que o caminho será escuro
Mas que Cristo é a luz do mundo
Deixe Ele te falar quem você é
Que a palavra te desfaça
Que te afogue em Sua graça
Só a cruz esconderá quem você não é
Eu olhei a tristeza nos olhos
E sorri.
(Os Arrais)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Paternidade


O natal sempre me trouxe várias reflexões e aproveitando o espírito natalino e as festas em família, resolvi falar sobre um assunto muito importante e que pode deixar esse clima ainda mais agradável. Quero falar sobre abandono paterno. Confesso que muitas vezes critiquei o natal, porque sempre vi as pessoas dando mais importância para o papai noel, para os presentes e a comilança, do que para o nascimento (ou à pessoa) de Jesus em si. Isso tudo porque, além de não encontrarmos evidências da data exata do nascimento de Jesus, sabemos que a origem do Papai Noel, está relacionada com a figura de São Nicolau. Ele foi um bispo que viveu entre os séculos III d.C. e IV d.C. e se tornou conhecido por conta de sua generosidade e dos milagres que realizou. Mais tarde, o bispo foi transformado em simbolo natalino a partir de uma publicidade da Coca-Cola, ganhando assim popularidade. Então podemos ver que ele pouco se relaciona à pessoa de Jesus e por isso sempre me perguntei o que ou a quem estamos comemorando no natal. Apesar disso, com o passar dos anos fui deixando de lado esse jeito Grinch de ser, porque além de ser um jeito muito chato de passar por essa época do ano, eu admito que amo essa época e suas comemorações. 

Ainda assim eu precisava trazer uma crítica, só que dessa vez ela tem outro foco. Uma nova reflexão me veio à tona recentemente quando vi uma frase no Facebook que me chamou atenção, ela dizia que o papai noel é "papai" porque só aparece uma vez ao ano, dá presentes e vai embora. Isso me fez pensar nas milhares de crianças que são criadas sem um pai por perto, ou que nunca tiveram contato com seu pai. Comecei a pensar sobre essa comparação entre pai e papai noel e mais, relacionei esses dois papéis com Deus, que para muitos, é o Pai celestial. Não estou me referindo à orfandade, e sim especificamente sobre abandono, rejeição e omissão paternal. 
Acredito que essa comparação faz muito sentido sim, afinal, sabemos que hoje em dia o núcleo familiar tem se transformado muito, não encontramos mais aquele velho modelo de família de propaganda de margarina. Segundo estatísticas da Data Popular, em 2013  já existiam 67 milhões de mães no país, dessas, 31% (20 milhões) são mães solo. Em 2013, o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) apontou que 5,5 milhões de crianças brasileiras não possuem o nome do pai registrado na certidão de nascimento. A modernidade infelizmente tem tornado as relações mais líquidas, assim como Bauman já havia nos ensinado. E é nesse contexto de mudanças que encontramos também, lamentavelmente, muitas crianças vivendo as consequências do abandono paterno, que pode ser tanto de natureza material, intelectual ou afetiva.

Falando um pouco sobre o conceito de pai no âmbito jurídico, entendemos que a paternidade é tida como direito-dever, construído na relação afetiva e que assume os deveres de realização dos direitos fundamentais da pessoa em formação tais como: “à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar” (art. 227 da Constituição). Ou seja, tem-se considerado pai aquele que assumiu os citados deveres, ainda que não seja o genitor. Ou seja, é muito mais do que o simples provimento de alimentos ou a causa de partilha de bens hereditários. É uma relação que envolve mais do que a relação genética, envolve a constituição de valores e da singularidade da pessoa e de sua dignidade humana, adquiridos principalmente na convivência familiar durante a infância e a adolescência, distinguindo-se, portanto,  a figura  do pai e do genitor, pois seus significados são diferentes.

Já as mulheres que desde sempre acumularam mais funções do que os homens, que cuidam da casa, trabalham fora, também têm que cuidar dos filhos. Enquanto os pais pouco ou nada participam, sobrecarregando assim essas mães. Muitas mulheres são humilhadas nesse processo e muitas vezes são induzidas ou pressionadas pelos seus parceiros ao aborto. Muitos homens confundem as coisas, porque ao romper a relação com a mãe de seus filhos, abandonam também as crianças. Até existem alguns pais (ou genitores) que assumem seu papel participando na criação das crianças, convivendo, dando carinho e atenção a eles. Mas a grande maioria dos pais (inclusive até mesmo os que vivem com seus filhos) são ausentes, ou omissos em suas responsabilidades e deveres. Existem exceções sim, mas de uma forma geral, é isto. O pior de tudo é quando esses "pais" participam apenas financeiramente e se gabam por isso. Então eu te pergunto: quanto custa a presença de um pai? Quanto vale o carinho e cuidado de um pai? Eu e muitos filhos por aí sabemos o preço/valor dessa presença (ou ausência) e ela excede ao valor de roupas caras, brinquedos, colégio particular, viagens e tudo o que o dinheiro pode comprar. Posso te afirmar que nada se compara e com nada se compensa. A lei pode exigir que um pai pague pensão mas quem vai obrigar um pai a dar atenção, carinho e cuidado? Amor não se cobra, e precisa ser espontâneo. 

Sei que é um assunto extremamente delicado para qualquer um, inclusive pra mim, porque eu vivi isso, minha mãe me criou sozinha com muita dificuldade (assim como milhares de mães) e também conheço muitas pessoas que viveram o mesmo. E durante minha caminhada tenho refletido sobre quem me tornei e sobre a influência daqueles que me colocaram no mundo. Sei muito bem como é essa ausência paterna e a forma como ela pode nos afetar gerando feridas e traumas como consequências que nunca serão mensuradas. 
São muitos danos psicológicos e emocionais, além de influenciar nossa formação enquanto seres humanos. Muitos desses filhos, podem se tornar pessoas inseguras, depressivas, podem desenvolver baixa autoestima e adicções diversas. Alguns desenvolvem relações amorosas abusivas, imploram por migalhas devido a sua carência afetiva.

Contudo, não sou eu quem vai ditar ou "ensinar" o que é ser um pai aqui. Também não posso simplesmente culpar todos os pais que se encaixam nessa situação, não posso ser juíza de coisa alguma. Acredito que cada um tem sua história, seus motivos e limitações enquanto ser-humano. Mas eu precisava trazer alguns conceitos, relatos e desabafos sobre esse assunto para induzir e provocar reflexões. E não posso deixar de ver tudo isso do ângulo em que a vida me colocou, além de lamentar por quem está no mesmo barco que eu.
Existem alguns meios de lidar com isso e acredito que seja uma escolha muito pessoal. A terapia é um deles, por exemplo. Mas, particularmente, atribuo essa cura, não apenas à terapia, mas também ao nosso Pai celestial. Na verdade não posso afirmar se Ele é homem ou mulher, mas penso que Ele excede gênero ou sexualidade. Penso que ao me relacionar com Ele, passo a ser amada como uma filha, posso encontrar cura, consolo e amor. Amor que muitas vezes me faltou, porém tão profundo e supremo que é maior e melhor do que qualquer pai poderia proporcionar até mesmo para aqueles que possuem um pai presente. 

Por fim, meu desejo é que você pai, possa ter consciência disso tudo e termino com estas palavras de Cecília Meireles:


Como se Morre de Velhice


Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)

Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'

Referências: 
https://www.todamateria.com.br/papai-noel/
https://www.historiadomundo.com.br/curiosidades/a-origem-do-papai-noel.htm
https://www.terra.com.br/noticias/educacao/voce-sabia/o-papai-noel-foi-criado-pela-coca-cola-saiba-origens-do-natal,6008aaccde6da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html
https://super.abril.com.br/historia/papai-noel/
https://brasilescola.uol.com.br/natal/historia-papai-noel.htm
https://jus.com.br/artigos/33778/evolucao-do-conceito-de-paternidade-e-as-consequencias-no-direito-das-sucessoes
https://jus.com.br/artigos/23844/a-constituicao-federal-de-1988-e-o-surgimento-da-paternidade-socioafetiva
https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-164/meu-pai-meu-genitor-o-valor-constitucional-do-afeto/
https://manualdohomemmoderno.com.br/comportamento/abandono-paterno-e-uma-epidemia-silenciosa-e-nos-precisamos-urgentemente-falar-sobre-isso
https://falauniversidades.com.br/abandono-afetivo-paterno-alem-das-estatisticas/
http://averdade.org.br/2017/06/cultura-abandono-paterno/

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

"Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?"
(Vinícius de Moraes) 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sobre amizade.

Nunca tive muitos amigos, creio que amizade cabe na mão.

Conceito importante na vida: distinguir quem está comigo de quem está ao meu lado. Ao meu lado existem centenas, comigo são os poucos que aguentam minhas falhas, suportam minhas inconstâncias, sublimam minhas chatices e não condenam meus silêncios. Aprendi com o Rubem Alves que quando o silêncio deixa de ser um constrangimento é sinal de que a amizade começou.

Amigos conversam mas também silenciam. Estar junto basta.

Tenho amigos dentro de mim, o tempo, a geografia nos distanciou mas eles continuam comigo, quando os vejo é como se nunca tivéssemos nos distanciado. Eles não estão ao meu lado, mas estão comigo.

Gosto do livro do Eclesiastes, um livro da Bíblia sobre sabedoria, sentido da vida, morte entre outros temas. Dentre as muitas ideias apresentadas ali uma delas sempre me intrigou:

"Mais vale ir a um funeral que a uma festa —
Afinal de contas, é para onde iremos.
Ninguém sai de lá sem aprender uma lição".

Uau! Como assim? Como pode o funeral ser melhor que a festa? Que conversa mais estranha é essa?

Não é um culto à morte, não é um pessimismo tirânico, mas uma lembrança de que existem situações que só a amizade sustenta. Existem momentos em diferenciamos quem é quem em nossas vidas.

Encarar a morte é coisa de amigo. Dar as mãos para alguém atravessar o luto é coisa de amigo.

No dia em que me despedi da minha mãe um amigo me escreveu: “quando o seu coração estiver doendo muito, eu te empresto o meu... Pode usar quando quiser”. Coisa de amigo.

Faça muitas festas, celebre mesmo, a vida merece e precisa disso, mas não confunda quem está na festa com quem está com você.

Obrigado aos meus poucos amigos que no meio do inverno fizeram verão em mim, que em noites escuras estamparam um céu de estrelas para me guiar.  Com vocês eu faço festa!

© VILLY FOMIN
(Outubro, 2016)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Misfit


“Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam”.
(Jack Kerouac)

domingo, 2 de outubro de 2016

Eu passarinho

Poeminha do contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

(Mário Quintana)

sábado, 3 de setembro de 2016

O outro

“O que você quer nem sempre condiz com o que outro sente.
Eu tô falando é de atenção que dá colo ao coração
E faz marmanjo chorar se faltar um simples sorriso,
às vezes, um olhar que se vem da pessoa errada, não conta
Amizade é importante, mas o amor escancara a tampa.
E o que te faz feliz também provoca dor
A cadência do surdo no coro que se forjou
E aliás, cá pra nós, até o mais desandado
Dá um tempo na função, quando percebe que é amado
E as pessoas se olham e não se falam
Se esbarram na rua e se maltratam...”
(Criolo – Ainda há tempo)

Cá entre nós, nos versos acima, o Criolo, genial como sempre, fala sobre algumas verdades: as pessoas mal dão atenção umas às outras. Hoje em dia com toda essa correria das nossas rotinas, muitas vezes não conseguimos dar a devida atenção às pessoas a nossa volta. E muitas vezes tudo o que uma pessoa precisa é de um pouco de atenção, ou de uma palavra, de um olhar, um abraço ou simplesmente ser escutada, sabe? Um tempo em que você abre mão de todo seu egoísmo para se voltar para o próximo. Mas nós (me incluo nisso) seguimos a vida, voltados para o nosso umbigo e correndo atrás do vento. E a atenção é importante porra!

Mas a verdade que mais faz sentido é quando o Criolo diz que: “O que você quer nem sempre condiz com o que outro sente.” Sim, o que eu quero, sinto e penso não necessariamente vai ao encontro do que os outros querem, sentem ou pensam. Nem sempre é a mesma coisa. Nem sempre é recíproco. Assim como x está para y, porém y não está para x, ou está para z.

Mário de Sá-Carneiro escreveu: “Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o Outro.”

E é exatamente assim. Entre duas pessoas existe um abismo, uma mistura com um pouquinho de um e um pouquinho do outro. Aí surgem as relações, as amizades.
Algumas pessoas chegam e nos cativam de tal forma que mesmo tendo convivido pouco tempo conosco, nos marcam para o resto da vida. Algumas pessoas nos encantam, nos surpreendem. Algumas pessoas deixam marcas, algumas pessoas mudam o nosso jeito de ver as coisas. Pessoas vêm e vão e eu gosto de acreditar que algumas sempre ficam.

Amizade sempre foi algo importantíssimo pra mim, algo que precisa ser levado a sério, talvez mais do que os relacionamentos amorosos. Gosto muito de fazer novas amizades, conhecer gente diferente, gente interessante, conhecer a história das pessoas. Tento manter algum tipo de contato com as amizades mais importantes que eu tenho. Sempre puxo assunto, vou atrás pra que as pessoas não se afastem, procuro ligar, visitar, fazer algo pra que a gente não perca o contato, afinal, amigo é o melhor lugar.

Sou intensa, exagerada, dramática, extremista... sou louca mesmo.
8 ou 8.000, não consigo viver de meio-termos. Se gosto, gosto pra caralho. Se odeio, reduzo as coisas a zero. Se amo, amo de todo meu coração. Se sinto, sinto em excesso. Se quero, quero demais. Mas depois que tudo passa, quando já não há mais afeto, esqueço, sou indiferente, implacável, não volto atrás. E se sou amiga, pode crer que sou mesmo e vou me esforçar pra sempre ser verdadeira e estar “lá” quando precisarem. E isso não significa que eu nunca erre com meus amigos, porque não sou perfeita, pelo contrário, sou cheia de falhas. Apesar de procurar ser atenciosa com os meus amigos, às vezes falto com atenção também, até porque tenho déficit da mesma, então é difícil me manter atenta.

Como sou muito visionária, sempre sonhei ter amizades duradouras, de 30, 40 anos assim como vejo acontecendo com pessoas que chegam à vida adulta ou na velhice e contam sobre suas amizades antigas. Esses são os verdadeiros tesouros, privilégios.


Minha mãe me dizia que ninguém é insubstituível, então não precisava me importar com a ausência de ninguém, porque sempre vai ter um “novo alguém”.
Apesar de não concordar, reflito sobre isso até hoje porque algumas pessoas passaram por mim e já não fazem mais parte da minha vida, pessoas em quem eu confiei, por quem eu me doei e hoje já não fazem mais sentido. 

Jesus disse que ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida aos seus amigos (João 15:13). Algumas parábolas de Cristo não podem ser levadas ao pé da letra, mas eu sempre tentei levar essa a sério. Aliás gosto muito das referências bíblicas sobre amizade, porque elas dizem que na angústia nasce o irmão, que as amizades sinceras dão ânimo pra viver e que alguns amigos são mais chegados que um irmão. 

Existem relações em que você só sabe falar sobre como está o tempo, ou dar bom dia, boa tarde e boa noite quando encontra a pessoa na rua ou no elevador. Tem os colegas, às vezes de classe ou de trabalho. Tem aquelas pessoas que você conhece durante alguma viagem e troca mensagens pela internet. Tem os amigos por tabela, que viram amigos seus porque são amigos dos seus amigos, ou amigos do seu namorado(a). Tem aquelas relações que você só fala com a pessoa por educação. Porque é algum parente, ou algo do tipo. Essas são as piores!
E tem também os amigos, os melhores amigos. E às vezes, tipo raramente, alguns são nossos irmãos de alma. São aqueles que nos entendem com um olhar apenas. Que dá a impressão de que os conhecemos há séculos, que adivinham até as palavras da gente, antes mesmo que elas saiam da nossa boca. Que cuidam da gente, e que sempre tem a palavra certa que nós precisamos ouvir.

E quando se rompe com tal nível de intimidade e cumplicidade não se sabe o que fazer, não se sabe o que pensar, nem o que esperar. Porque quando terminamos um namoro, são os nossos melhores amigos que nos consolam, que nos ouvem e tentam nos distrair pra não desfalecermos. Mas e quando se rompe com um melhor amigo? Pra onde é que se vai? Com que perna se deve seguir? Onde chorar? Quem vai nos ouvir? Surge no mínimo um pessimismo em relação às amizades. Uma desesperança e arrependimento por ter alimentado tantos porcos com pérolas. E pensamentos do tipo: “Se eu fui amiga a tantos anos de alguém que hoje já não faz parte da minha vida, alguém que caminhava comigo e que hoje está agindo “assim ou assado”... como é que vai ser agora? Como vou ser amiga daqui pra frente? Eu sou amiga? O que é ser amiga?”.

Tudo isso porque nós só prestamos atenção no que não está. Nós focamos naquilo que nos falta. E tem dias que a falta é grande, e que tudo que conseguimos raciocinar, é que dói. É isso, dói. Dói desde os dedos dos pés até o último fio de cabelo. 

Resta-me o silêncio, uma vez que me senti silenciada. O silêncio que constrange e que incomoda. O silêncio que pode ser calmaria, mas também pode ser confronto. Porque existem posturas silenciosas mais danosas do que gritos, pois o silêncio tem a capacidade de dizer coisas que as nossas muitas vozes e palavras não são capazes. E muitas vezes, o não fazer nada, o não agir, pode ser nossa melhor ação.

No mais, vou praticando o desapego, a desamizade, a desconstrução e todas as muitas palavras que começam com a letra D e que servem nessa ocasião. Que Deus me ajude a perdoar, porque entende-lo eu não consigo.