quarta-feira, 31 de julho de 2024

Interestelar

Rodoviárias me trazem uma angústia enorme. Desde que nasci, tenho viajado muito, porque tenho uma parte da minha família em São Paulo e a outra em Londrina, onde nasci, no Paraná. Hoje em dia moro em Santa Catarina e só Deus sabe o peso que sinto no meu coração, quando deixo uma cidade para trás, ou quando deixo aqueles que amo. Sempre me questionei por que Deus me fez assim com o coração tão mole… Por que tanta sensibilidade, tantos altos e baixos, e mais, por que tudo tem que ser tão intenso assim? Por que não posso simplesmente me mover de um lugar para o outro de maneira mais simples?

Quando eu era criança e depois na minha adolescência, eu costumava passar todas as férias escolares na casa da minha avó paterna, em São Paulo. Então eu sempre viajava, não apenas para São Paulo, na capital, mas também para o litoral ou para alguma outra cidade do estado de São Paulo.

Hoje em dia, como professora, agradeço pelo calendário que rege minha rotina de trabalho, pois ele permite que eu continue viajando com certa frequência e liberdade. Só que mais que isso, ele permite que ainda viva dentro de mim, o meu velho hábito de viagens que eu adquiri na minha infância. Ele permite que ainda viva dentro de mim aquela criança, buscando encurtar as distâncias e matar a saudade.

Na minha adolescência fui apaixonada por alguém que morava em outra cidade, então por conta dessa experiência de viajar tanto, eu tirava isso de letra. Estar longe, para mim, não era um problema. Afinal, estar “junto” é algo bem relativo. Anos atrás, eu estava noiva e tinha um relacionamento à distância, mas dessa vez, distante de verdade, separados pelo oceano. Inviável para mim, para nós. Independente dos meus dramas, e tentando ao máximo não ser piegas e já falhando miseravelmente, uma coisa eu sei, o melhor lugar do mundo é ao lado de quem a gente ama.

Viajar é uma das melhores coisas que eu já vivi, seja por causa desses meus motivos pessoais, seja por causa do meu ascendente em sagitário, ou do destino, ou seja por causa de motivo algum. Mas sempre que eu me despeço, meus olhos marejados insistem em me lembrar que a gente nunca sabe quando vai ser a última vez, que se eu estiver ausente vou perder momentos importantes da vida dos meus familiares, meus olhos marejados insistem em me lembrar que a solidão machuca e que muitas vezes, a cura, vem da presença. Da presença de pessoas especiais, da presença de quem nos ama e de quem amamos, da presença (inclusive) de Jesus. E isso não é um papo religioso.

Acho engraçado o poder que as crianças têm de nos desestruturar com simples perguntas sinceras do âmago de sua curiosidade. Ano passado meu sobrinho no auge dos seus quatro anos me mandou um áudio que praticamente derreteu meu coração: “tia, você não vai vir pra cá me ver? Você tem que vir pra cá! Você ama eu!” Preciso dizer que eu chorei?

Enfim, estar nas rodoviárias me faz pensar e sentir tantas coisas. Cada viagem tem um motivo, cada motivo, um sentimento. Alguns são bons, mas outros talvez não e sempre bate aquela curiosidade do porquê as pessoas estão ali naquela rodoviária, assim como eu. Pra quem elas vão? Por que elas vão? Por que algumas, às vezes estão chorando (assim como eu)? Será que o motivo delas é o mesmo que o meu? A quantos quilômetros elas estão daqueles que elas amam?

Quando eu viajo a noite costumo observar as estrelas, observar sua beleza, durante meu itinerário. E me vem um pensamento: e se fôssemos como as estrelas? Que nascemos, vivemos, iluminamos uns aos outros e morremos… Não tão longe umas das outras, apenas cada uma em sua órbita, mas todas no todo. Atravessando caminhos, rodovias, limites, territórios, estados.

Sendo interestaduais.

Interestelares.

Findo esse texto com essa reflexão, findo o mês de julho, findo as férias, com aquele pensamento de costume, que ecoa dentro de mim, a cada despedida: viajo porque preciso, volto porque te amo.

quarta-feira, 13 de março de 2024

Quadrilha



"João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

"Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se."

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Horóscopo

Talvez os horóscopos estejam todos errados 

Como discos riscados, telefones quebrados

Ou como muitos gatos em cima do telhado.


Cujas vozes querem muito dizer,

Tentando a todos convencer,

E prever aquilo que você virá a ser.


Será que a astrologia falhou ao me descrever?

E talvez eu nunca vá entender o porquê 

Meu ascendente se destaca mais, 

Sem que eu possa ao menos escolher.


Eu sou de gêmeos ou de sagitário?

Será que meu mapa tá todo ao contrário?

Eu sou de Londrina ou de Balneário?

Eu nasci aqui, mas não me lembro o horário.


Nas cartas à mesa existe um atalho?

Onde é que eu me desenbaralho?

E por que eu vou me dar ao trabalho?

Se parece que todo meu ato é falho.


Não sei, não sei...

Mas eu preciso me conhecer.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Eu queria te desconhecer

Só pra depois te conhecer tudo de novo

E dessa vez não entrar no seu jogo

Achar desculpa, motivo e porquê

Te tocar, mas sem me queimar no teu fogo

Encontrar antídoto, refúgio e alívio

Me proteger de você.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Fala

Eu falo. Falo muito. Falo pelos cotovelos. Tagarela, espevitada, ansiosa e acelerada.

Falo acordando, ao caminhar, comendo, brincando, chorando, dormindo.

Falo porque existo. Porque preciso estar consciente do que sinto.
Falo porque o peito grita. Para me lembrar que estou viva. Que sou de carne, mesmo ela quase estando no osso. Para me lembrar que quando se arranha arde, que quando machuca arranca, que quando derrubam, eu caio, mesmo achando que não. Falo e grito porque chorar as vezes não basta. Para me lembrar da dor quando me esqueço. Para estar consciente que ainda existo, apesar de. Do nada, do tudo, e de todas as coisas que deixam de ser importantes quando o tempo passa, mesmo quando a carne ainda parece sangrar.

Falar parece não mudar nada, mas me lembra de tudo. Porque falar, às vezes não me leva a causa, mas surte efeito. Me lembra que tenho raiva, que tenho rancor, que tenho desejo e que tenho amor.

Falo porque quando me perco no silêncio, descubro que às vezes ele é a morte de coisa alguma, ou do todo que me resta. Nunca se sabe.
Falar me leva ao chão enquanto me encaminha para o perdão.

Falo porque palavras me deixam viva, mesmo quando acho que estou prestes a partir.

(Autora: @daniquartezani )

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

 

  

Há borboletas em todo lugar. As borboletas que deveriam estar no meu estômago, estão voando pelo meu corpo inteiro. Entre uma perna e outra, passando pelos meus pés, joelho e cabelo.

Elas contornam meu pescoço e brincam sobre meu rosto, que ao sol exposto reluz suas asas a bater. Borboletas atravessam diante dos meus olhos e pousam no meu nariz trazendo o gosto de mais uma vez me apaixonar e de sempre ficar por um triz.

Sobrevoam o meu ventre, minhas costas, tropeçam nos meus ombros, seios, umbigo e em todas as palavras que você me diz. Eu tento me afastar, mas elas querem ficar comigo e assim me fazer mais feliz.

E pra finalizar seu vôo, elas entram na minha orelha e deslizam pela minha boca, como eu sempre quis. Pra depois irem embora, correndo pelo meu clitóris, subindo nas minhas coxas e escorrendo pelos meus quadris.

Há borboletas em todo lugar, no meu peito vazio por falta do seu abraço, nas minhas mãos pequenas e nos meus dedos em pedaços. Certamente não existe em mim um espaço, em que as borboletas não consigam dançar. 


sexta-feira, 4 de novembro de 2022



Eu te amo como um sentimento desperdiçado, feito água que cai pelo ralo, que se perde e nunca mais se vê.

Eu te amo como um leite derramado, no chão ou no fogo depois de ferver. As águas passadas que aqui habitam, nunca se secam e insistem em verter. 

Me perco em mim pra me encontrar em você, mas perco você sem nunca ter me ganhado pra conseguir perder.