Rodoviárias me trazem uma angústia enorme. Desde que nasci, tenho viajado muito, porque tenho uma parte da minha família em São Paulo e a outra em Londrina, onde nasci, no Paraná. Hoje em dia moro em Santa Catarina e só Deus sabe o peso que sinto no meu coração, quando deixo uma cidade para trás, ou quando deixo aqueles que amo. Sempre me questionei por que Deus me fez assim com o coração tão mole… Por que tanta sensibilidade, tantos altos e baixos, e mais, por que tudo tem que ser tão intenso assim? Por que não posso simplesmente me mover de um lugar para o outro de maneira mais simples?
Quando eu era criança e depois na minha adolescência, eu costumava passar todas as férias escolares na casa da minha avó paterna, em São Paulo. Então eu sempre viajava, não apenas para São Paulo, na capital, mas também para o litoral ou para alguma outra cidade do estado de São Paulo.
Hoje em dia, como professora, agradeço pelo calendário que rege minha rotina de trabalho, pois ele permite que eu continue viajando com certa frequência e liberdade. Só que mais que isso, ele permite que ainda viva dentro de mim, o meu velho hábito de viagens que eu adquiri na minha infância. Ele permite que ainda viva dentro de mim aquela criança, buscando encurtar as distâncias e matar a saudade.
Na minha adolescência fui apaixonada por alguém que morava em outra cidade, então por conta dessa experiência de viajar tanto, eu tirava isso de letra. Estar longe, para mim, não era um problema. Afinal, estar “junto” é algo bem relativo. Anos atrás, eu estava noiva e tinha um relacionamento à distância, mas dessa vez, distante de verdade, separados pelo oceano. Inviável para mim, para nós. Independente dos meus dramas, e tentando ao máximo não ser piegas e já falhando miseravelmente, uma coisa eu sei, o melhor lugar do mundo é ao lado de quem a gente ama.
Viajar é uma das melhores coisas que eu já vivi, seja por causa desses meus motivos pessoais, seja por causa do meu ascendente em sagitário, ou do destino, ou seja por causa de motivo algum. Mas sempre que eu me despeço, meus olhos marejados insistem em me lembrar que a gente nunca sabe quando vai ser a última vez, que se eu estiver ausente vou perder momentos importantes da vida dos meus familiares, meus olhos marejados insistem em me lembrar que a solidão machuca e que muitas vezes, a cura, vem da presença. Da presença de pessoas especiais, da presença de quem nos ama e de quem amamos, da presença (inclusive) de Jesus. E isso não é um papo religioso.
Acho engraçado o poder que as crianças têm de nos desestruturar com simples perguntas sinceras do âmago de sua curiosidade. Ano passado meu sobrinho no auge dos seus quatro anos me mandou um áudio que praticamente derreteu meu coração: “tia, você não vai vir pra cá me ver? Você tem que vir pra cá! Você ama eu!” Preciso dizer que eu chorei?
Enfim, estar nas rodoviárias me faz pensar e sentir tantas coisas. Cada viagem tem um motivo, cada motivo, um sentimento. Alguns são bons, mas outros talvez não e sempre bate aquela curiosidade do porquê as pessoas estão ali naquela rodoviária, assim como eu. Pra quem elas vão? Por que elas vão? Por que algumas, às vezes estão chorando (assim como eu)? Será que o motivo delas é o mesmo que o meu? A quantos quilômetros elas estão daqueles que elas amam?
Quando eu viajo a noite costumo observar as estrelas, observar sua beleza, durante meu itinerário. E me vem um pensamento: e se fôssemos como as estrelas? Que nascemos, vivemos, iluminamos uns aos outros e morremos… Não tão longe umas das outras, apenas cada uma em sua órbita, mas todas no todo. Atravessando caminhos, rodovias, limites, territórios, estados.
Sendo interestaduais.
Interestelares.
Findo esse texto com essa reflexão, findo o mês de julho, findo as férias, com aquele pensamento de costume, que ecoa dentro de mim, a cada despedida: viajo porque preciso, volto porque te amo.